Sobre sinos, perigos e oportunidades

Conta a fábula que os ratos reuniram-se em assembleia para resolver de vez um grande dilema que os assolava: os ataques furtivos de seu arqui-inimigo há gerações, o gato. Frente às constantes baixas dos entes queridos por conta dos vis ataques daqueles dentes vorazes, começaram a reunião e, um a um, foram se manifestando. Ideia vai, ideia vem, até que um deles, o ratinho mais conhecido do pedaço discursou em tom solene:

– Ora, tive uma ideia brilhante! Colocaremos um sino no pescoço deste tirano… Assim ficará fácil prever seu ataque!

A multidão dos roedores prorrompeu numa salva de palmas e já se iam despedindo, pensando ter o problema resolvido, quando um deles, franzino e pensativo lançou a pergunta fatal:

– Sim, e quem vai colocar o sino no pescoço do bichano?

EDUCAR É O DESAFIO DO SÉCULO E DEPENDE, ESSENCIALMENTE DA ARTICULAÇÃO DO CONHECIMENTO TEÓRICO SOBRE O PROCESSO DE APRENDIZAGEM HUMANA

Nunca se falou e portanto, se ouviu tanto sobre “educação” como agora. Frente às consequências das mudanças radicais que as sociedades vêm sofrendo, em todos os âmbitos, nos quatro cantos do mundo, as pessoas – especialistas ou não – debatem e discorrem com fluência e empolgação, defendendo a educação como saída para situações-limite nas quais os indivíduos se envolvem, colocando a existência e a convivência em pleno risco, num ataque não menos vil, de dentes vorazes que destroem, mais que a corpos, mentes, ideias e o próprio desenvolvimento humano. Sabe-se, portanto o que fazer; porém, como continua a ser ainda o grande desafio…

Crítica voraz recai sobre os que “perderam a educação” ou sobre os que “nunca a tiveram”, muitas vezes banalizando o assunto e reduzindo-o à análise simplista de comportamentos que na verdade não passam de desdobramentos de uma questão mais profunda e merecedora de atenção: afinal, o que é educar?

Todos – quer sejam professores, pais, ou que tenham, mesmo sem compromisso de parentesco, sob sua responsabilidade, a tarefa de “educar alguém” – concordam num aspecto: almejam sujeitos capazes de atribuir valor e sentido apropriados à vida e às relações que ela encerra; educados, enfim. No entanto, uns educam, outros, simplesmente adestram…

Ora, havemos de definir que, antes de pai, mãe ou professor aquele que se atreve a educar deva ser, na essência, educador e que educar seja verbo imperativo, sim, mas muito mais que um adestramento de impulsos e vontades. Constitui-se antes num processo – portanto, num ato contínuo de formação – que envolve necessariamente valores morais e de cultura, levando sempre em conta as individualidades e a diversidade do meio no qual os sujeitos estão colocados; sua história e trajetória. No entanto, não raras vezes, se esquece de que o sujeito, aquele tão vazio dos predicados que desejamos, não prescinde do essencial: do exemplo e convicção de quem já passou pelo processo.

Educar é o desafio do século e depende essencialmente da articulação do conhecimento teórico sobre o processo de aprendizagem humana, na perspectiva “conhecer – compreender – agir”, com o ponderado retorno à simplicidade e à intuição. Uma retomada do quinhão pessoal de responsabilidade, de quem se dispõe a ensinar, construindo uma postura que dá crédito diante da grandiosidade da função educativa. Oportunizar o benefício da dúvida, sempre. Considerar o outro como próximo e único. Talvez, então, será seguro e garantido colocar o sino no pescoço do bichano.

Authored by: natanael

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