Educação cristã

Educação cristã

Em nosso país, percebemos cada vez mais a importância de se repensar seriamente o que é educação. Esse assunto não é tarefa única de professores engajados em causas político-partidárias, como muitos pensam. Antes, a sociedade como um todo clama por mudanças urgentes na educação.

Não é objetivo principal, neste texto, analisar as diferentes linhas pedagógicas ou teorias da educação que têm surgido nos últimos decênios. Essa é uma tarefa hercúlea, mas importante, a qual todos os envolvidos na educação devem fazer.

Aqui, a questão está focada em um aspecto de fundamentação, que perpassa toda a educação contemporânea e se mostra como radical – no sentido de raiz, fundamentação – para uma educação voltada a ensinar os princípios constituintes de uma cidadania plena. Ou seja: falamos da educação cristã.

A fim de vislumbrarmos a dimensão e radicalidade da educação cristã para o ser humano, iniciemos por contextualizar o tema no mundo em que vivemos. Até um passado bastante recente, a educação era praticada dentro dos parâmetros constitutivos do conhecimento. Nestes parâmetros, a noção geral de tempo e espaço era uma segurança para todos. Assim, a educação tinha “um lugar” em “um tempo” da vida. Daí a noção de tempo e lugar de estudo, professor e aluno, formalizando uma compreensão vigente até nossos dias dos papéis de professor e aluno; mas descaracterizada nos últimos decênios.

Vejamos, de modo muito rápido, como foi o desenvolvimento da educação formal na história no mundo ocidental cristão.

Como desde o século V a instrução e a educação dos jovens estavam intimamente vinculadas à liderança da Igreja, todos os que procuravam por uma formação formal tinham a necessidade de buscar a mesma junto à Igreja.No século XII, a educação sofre um avanço que põe fim ao monopólio eclesiástico sobre a educação. Isso ocasionou que muitos dos recém-constituídos Conselhos Municipais procurassem iniciar espaços destinados ao ensino fora dos muros da Igreja. No entanto, a educação estava em crise e com dificuldade de subsistência.

Lutero, a Reforma e a educação

A Reforma Luterana trouxe profundas implicações econômicas, políticas e sociais à Alemanha e região circunvizinha. Neste novo cenário, a educação desempenhou preponderante papel e foi alvo de grande empenho por parte de Martinho Lutero, que era professor e tinha uma visão da utilidade do ensino para todos, a partir de uma compreensão profunda da educação nos princípios bíblicos, nos quais a família era a base do processo educacional.

O sistema de ensino alemão acabou por ser totalmente reformulado a partir do pensamento de Lutero que, junto com seu colega Melanchthon, acabou por pontuar a inauguração da escola moderna. Um exemplo disso temos na estruturação do sistema de ensino global organizado em três ciclos: a) fundamental; b) médio; e, c) superior.

Lutero tinha uma concepção de educação cristã, e isso é perceptível em todos os seus escritos onde a temática da educação aparece. Alguns de seus textos mais conhecidos sobre o assunto são: “À Nobreza Cristã da Nação Alemã, acerca da melhoria do Estamento Cristão”, escrito no ano de 1520; “Ao Conselho de todas as cidades da Alemanha para que criem e mantenham escolas”, escrito em 1524; “Uma Prédica para que se mandem os filhos à escola”, de 1530.

Para Lutero, pais comprometidos com sua tarefa de educar os filhos também estariam colaborando na construção de cidadãos bem educados, a fim de assumirem sua responsabilidade junto à sociedade civil bem como no governo espiritual. Em outras palavras, a educação é necessária em todos os âmbitos.

Neste processo, a figura do professor é fundamental para que a educação, efetivamente, aconteça. Este deveria, na visão dos reformadores, dispor de tempo e espaço para seu preparo, o qual estava vinculado a uma compreensão profunda, por parte do professor, da Palavra de Deus.

Não há sentido numa educação se ela não estiver intimamente conectada à Palavra de Deus, ensinava Lutero, pois somente a partir dela o ser humano pode compreender sua situação no mundo e qual a sua vocação efetiva. Por isso, no seu texto de 1524, lemos que: “onde a Sagrada Escritura não é a diretriz, certamente oriento para que ninguém envie seu filho”.

Por isso, os parâmetros educacionais de Lutero podem ser sumarizados como segue:

a) os pais são os responsáveis primeiros pela educação de seus filhos;
b) a universalidade da educação é um direito e uma necessidade;
c) é obrigação do Estado suprir e estabelecer escolas;
d) o fundamento de todo processo educacional (todos os níveis) está na Sagrada Escritura, e partir da qual todas as ciências úteis para o conhecimento devem ser ensinadas;
e) os professores devem ter preparo específico e consistente;
f) pais e filhos devem respeitar os professores, os quais devem ser dignamente remunerados;
g) os professores devem ser, por sua vez, exemplos para seus alunos e a sociedade;
h) toda instituição de ensino deve dispor de biblioteca.

A partir do pensamento dos reformadores, é possível perceber a importância da educação na constituição da pessoa, do cidadão.

Dois séculos depois, o pensador francês Jean-Jacques Rousseau escreve no seu livro Emílio: “Tudo está bem saindo das mãos do autor das coisas, tudo degenera nas mãos dos seres humanos”. Com isso, se vislumbra um novo momento na educação e que vai desaguar no que conhecemos como a educação moderna. A educação e formação oferecida pelo estado são republicanas, em que igreja e estado caminham separados em suas funções. Diga-se de passagem que esta ideia não é original do século XVIII, já que a república e seus ideais são invenção dos romanos.

No entanto, se no início salientamos o tempo e espaço da educação, no mundo do consumo desenfreado em que a sociedade está mergulhada nos últimos decênios, esta noção vem influenciar profundamente a educação atual. Só para citar algumas alterações neste campo, vejamos duas, que são basilares para a compreensão da importância dos parâmetros cristãos para uma educação inserida em uma sociedade consumista:

a) os avanços da tecnologia digital, nos quais o “aqui e agora” não é mais, necessariamente, definido em termos físicos, mas sim virtuais. Isso significa que o “aqui” se transforma em “todo lugar”; e, o “agora” se torna o único tempo que tem valor. Ou seja: o processo ensino-aprendizado foi alterado e não há mais lugar específico para ensinar ou estudar. Com isso, no ensino à distância, se torna normal uma pessoa estar “em sala de aula” enquanto está sentado confortavelmente à beira mar sob um guarda-sol. Mas, igualmente, pode “não estar presente” enquanto está sentado em uma sala de aula e um professor presencial. Assim, a tecnologia pode facilitar por um lado, mas por outro precisa de “educação” para não ser objeto de alienação, em que a tecnologia acaba por ser um fim em si e não um meio ou ferramenta para a formação integral e digna do ser humano.

b) as mudanças comportamentais e estruturais das famílias. Esta, talvez seja uma das grandes mudanças do mundo contemporâneo, pois as relações profissionais alteraram drasticamente os momentos de convívio familiar. E… a educação de filhos! Com isso, em muitos casos, a educação passou a ser vista como “uma coisa que acontece na escola”. Para compensar o “não tempo” passado com os filhos, a compensação acaba sendo monetária e não “o presente da presença”. Isso, na maioria das vezes, não é consciente, por isso a solução dos problemas decorrentes nem sempre é a melhor. Exemplo disso é perceptível no aumento de problemas de disciplina e de desvirtuamento dos padrões de convivência social, tanto em colégios como em universidades.

A violência e os conflitos de gerações que ocorriam no final da década de 1950, além de toda discriminação racial, levou a pensadora Hannah Arendt a se ocupar profundamente com a questão da educação. Para ela, uma das principais responsabilidades dos adultos para com as crianças é a da educação. Esta, no pensamento de Arendt, significa guiar as crianças por veredas que elas desconhecem.

Com isso, Arendt enfatizava o papel e a importância da autoridade na sala de aula. Contrária ao autoritarismo, defendia que o papel dos professores é o de estimular o aluno a conhecer o mundo e, com conhecimento, procurar mudar a situação socioeconômica vigente.

A educação, assim, é um acompanhamento na caminhada do desenvolvimento do ser humano, iniciando com sua infância, depois juventude e, por fim, a fase adulta. Não pode ser pensada diferentemente de um processo.

Os parâmetros cristãos para a educação

Por isso, voltamos ao tema: a importância dos parâmetros cristãos para uma educação inserida em uma sociedade consumista. Essa necessidade está fundamentada na seguinte premissa: os parâmetros cristãos norteiam e conferem dignidade ao ser humano, pois restabelecem uma efetiva relação com Deus. 

Quando falamos sobre educação cristã, muitas pessoas tendem a pensar que estamos falando unicamente de educação religiosa ou ensino catequético. Educação cristã é isso, com certeza, mas não somente isso. Ela está vinculada a uma questão muito mais abrangente e universal: viver e transmitir a boa notícia (evangelho) dá um novo significado a toda vivência de uma pessoa a partir de Jesus, o Cristo.

Sem a centralidade na Palavra de Deus, a educação cristã não existe. Uma constatação muito simples e lógica, já que sem Cristo a educação pode existir, mas jamais será educação cristã.

Assim, entender a educação cristã nesta visão geral também muda o papel dos envolvidos no processo ensino-aprendizagem, principalmente os professores, que são vistos como exemplos vivos para seus alunos.

Nisso pode-se perceber o claro compromisso com a verdade do Evangelho, pois, em casa, os pais são os orientadores mais importantes na formação de uma pessoa, pois desde cedo ensinam seus filhos nos passos de uma educação integral e cristã. Isso é uma tarefa importante confiada por Deus a todas as pessoas que receberam a graça de terem filhos e, portanto, precisam ter responsabilidade na formação de seus filhos.

Mais tarde, continuando em sua responsabilidade paterna /materna, escolhem uma instituição onde entregam seus filhos aos cuidados de pessoas que continuam o processo ensino-aprendizado nos parâmetros da educação cristã. Algo que já foi visto em Lutero.

Na sociedade de consumo, o ponto de partida para os parâmetros traçados está calcado no interesse financeiro e na competição ególatra (idolatria do ego), que leva a uma desenfreada corrida sem volta e sem ganhadores. A promessa consumista é a euforia “aqui e agora” por meio do hedonismo, no qual a euforia toma o lugar da felicidade e, consequentemente, de uma depreciação da dignidade do ser humano. Um engodo do que é educação e do que é felicidade!

Portanto, a importância dos parâmetros cristãos para uma educação inserida em uma sociedade consumista está na sua base e no seu ponto de partida que é o amor de Deus por nós. Não há euforia nisso; antes, uma compreensão do que é a felicidade e a vida digna em todos os níveis.

Authored by: natanael

Deixe uma resposta