A vida e os sonhos de  um estudante chinês

A vida e os sonhos de um estudante chinês

A China é o país mais populoso do mundo, com 1,4 bilhão de pessoas. Henan ocupa, dependendo da conta, a 1ª ou 2ª posição de província com maior número de habitantes do país. Com aproximadamente 94 milhões de pessoas, se Henan fosse um país, seria o 12º maior do mundo em termos de população, ficando entre o México e as Filipinas.

Ruyang fica dentro da jurisdição de Luoyang, uma das duas cidades mais ricas da província. Mesmo assim, a economia da região é subdesenvolvida e há muita pobreza. A família de Ivo, composta por quatro pessoas, incluindo seus pais e sua irmã, não é exceção a essa realidade, o que torna sua história pessoal ainda mais interessante.

Ivo tem 21 anos e está prestes a se formar no curso de português da Universidade de Comunicação da China, em Pequim, capital do país. As universidades de Pequim são as de maior prestígio da China, e conseguir uma vaga em uma delas representa um grande passo na vida de um jovem chinês: acesso à educação superior e formação profissional de qualidade, além de oportunidade de ascensão social, como enfatiza o nosso entrevistado. Ainda que o estudo da língua portuguesa tenha acontecido por acaso em sua vida, com o incremento recente das relações comerciais e de investimento entre o Brasil e a China, a fluência de Li em chinês, português e inglês o torna um profissional visado pelas empresas que têm negócios entre os dois países. Apesar de sua preferência pela vida corporativa, Ivo teria também a opção de ser um diplomata chinês e, neste caso, poderia ser enviado para trabalhar em qualquer país de língua portuguesa.

A universidade onde Ivo estuda é referência no ensino de português na China. Os alunos fazem os dois primeiros anos de aulas em Pequim, passam o terceiro ano estudando no Programa de Português para Estrangeiros da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Porto Alegre, e em seguida voltam para a China para cursar o quarto e último ano. Como conclusão do curso de graduação, devem apresentar um trabalho de conclusão de curso (TCC), assim como no Brasil. O tema escolhido por Li para o seu TCC trata do incremento dos investimentos chineses no Brasil. Como a China utiliza o calendário escolar do hemisfério norte, sua formatura acontecerá em julho de 2013. Morar no Brasil, como normalmente acontece a qualquer estudante que more no exterior, influenciou não apenas as habilidades de Li no português, mas deixou traços também em seu jeito de ver a vida. Segundo ele, os brasileiros são mais flexíveis e enxergam outros valores na vida além de apenas trabalho, que Li considera ser um dos aspectos mais importantes na vida de um chinês.

Ivo fez um esforço para aproveitar ao máximo sua estada no Brasil. Participou ativamente de suas aulas, fez amigos brasileiros, viajou pelo país, socializou com os estudantes da UFGRS e deu aulas de chinês para brasileiros interessados no idioma. O convívio com os locais deu a Ivo a capacidade de entender o jeito de ser e agir dos brasileiros, o que em muito contribuirá para sua vida profissional futura. Esse é o grande trunfo dos profissionais que tiveram experiências no exterior: além do conhecimento de outras línguas, tornam-se hábeis na negociação e convivência com os cidadãos de outros países.

Com a entrevista abaixo, queremos mostrar aos estudantes brasileiros um pouco de como é a vida de um estudante chinês: seu ritmo de estudos, anseios, dificuldades, expectativas de futuro e oportunidades decorrentes de uma formação internacional. Talvez a história de Ivo possa servir de inspiração e motivação para outros alunos das nossas escolas no Brasil.

Porque você decidiu estudar o português?

Foi uma coincidência a escolha do português como minha especialidade na faculdade. Eu tinha muito interesse em conhecer uma língua nova. Qualquer língua me serviria, exceto inglês, que eu já conhecia – mesmo que não falasse bem. Prestei vestibular em 2009 e tirei uma nota razoável. Naquele ano, quatro universidades ofereciam curso de línguas estrangeiras para os candidatos da minha província: Universidade de Estudos Internacionais de Pequim, Universidade de Economia e Negócios Internacionais e Universidade de Comunicação da China,  na capital Pequim, e uma universidade  em Cantão, sul do país. Levando em consideração a minha nota, decidi me candidatar à Universidade de Comunicação. A coincidência foi que essa faculdade somente ofereceu o curso de português na minha província e recrutou apenas três alunos. Graças a Deus, fui admitido.

Como era sua vida de estudante antes de entrar na universidade?

 Na China, temos a Escola Primária (por 6 anos), o Ensino Fundamental (por 3 anos) e o Ensino Médio (por 3 anos). Como a China é muito grande e tem muitas províncias, cada região pode ter uma forma diferente de recrutar alunos. Vou usar o exemplo do sistema educacional da minha cidade: os alunos do Ensino Fundamental devem passar em uma prova para entrar no Ensino Médio. Todos querem entrar nas melhores escolas de Ensino Médio e nas melhores universidades, mas só é possível garantir uma vaga na escola ou universidade desejada tendo boas notas. Então, a vida de um aluno de Ensino Fundamental e Médio, especialmente Médio, é bastante puxada, porque a concorrência é enorme. São centenas de milhares de alunos. A minha vida na escola foi ainda mais dura do que a de alguns dos meus colegas, pois sou superexigente e sempre quis estar entre os melhores alunos da turma e da escola. Eu costumava ter quatro horários de estudo: sozinho, de manhã cedo, das 6h às 7h10min; na escola, das 8h até ao meio-dia; após o almoço, na escola novamente, das 14h às 17h ou mais tarde; e, após o jantar, mais aulas, das 17h30min às 19h30min (no ensino fundamental as aulas poderiam ir até 20h ou 20h30min). No fim de semana, eu ainda estudava em casa e, às vezes, ia até a escola e ficava lá, estudando sozinho. A escola ficava pertinho da minha casa e eu gostava de ir até lá porque estar na escola me dava vontade de estudar. Como eu sempre tinha que me concentrar nos estudos, eu não ajudava muito em casa. Mas o meu pai sempre me disse: “o seu bom desempenho nos estudos é a melhor ajuda para a família”. Finalmente, meus esforços foram recompensados: fui o 2º melhor aluno da minha escola no Ensino Fundamental e o 9º melhor no Ensino Médio. Na escola, o sistema das provas funcionava assim: alunos dos dois primeiros anos do ensino fundamental têm prova no final de cada semestre e, no último ano, provas mensais; no Ensino Médio, nos dois primeiros anos as provas são trimestrais e, no último ano, mensais. Às vésperas do vestibular, tínhamos prova a cada semana! Um horror! Na China, o caminho para uma pessoa pobre assegurar um futuro próspero é só através do estudo, da boa escolaridade. Por isso, a população em geral dá muita atenção à educação.

Como era sua vida em casa e o relacionamento com seus pais?

Sou de uma família pobre. Meus pais eram vendedores de rua. Eles faziam tofu em casa e no dia seguinte levavam para vender nas ruas. Na verdade, eles tinham um lugar fixo para vender, tipo uma banca. A vida era bastante difícil. Meu pai saía de casa de madrugada e voltava só à noite. Assim que ele chegava, ele e minha mãe já começavam a fazer tofu para vender no dia seguinte. O trabalho era bastante pesado, pois eles faziam tudo à mão e o retorno financeiro era muito pequeno. Minha vida em casa era a continuidade da vida na escola: quando eu não estava estudando, ajudava meus pais a preparar o tofu ou ajudava a limpar a casa. Minha única diversão no fim de semana era ver televisão ou sair com meus amigos quando não aguentava mais o estudo

Como você se sentiu quando foi aceito na Universidade de Pequim?

Fiquei muito feliz quando fui aceito na Universidade de Comunicação da China! Estudar fora da minha província sempre foi o meu sonho. Minha província é muito pobre e não tem boas universidades. Isso é privilégio das metrópoles e das províncias ricas, tais como Pequim, Xangai e Cantão. Isso significa que, para ter acesso a uma boa educação e ter um futuro próspero, é preciso estudar fora. Meus pais não têm boa escolaridade e não conhecem bem esse assunto, por isso a escolha de lugar para estudar dependia mesmo de mim.

Quantos candidatos da sua província queriam entrar na mesma faculdade que você em Pequim?

No ano em que eu entrei na faculdade, a Universidade de Comunicação recrutou candidatos em duas etapas na minha província: na 1ª etapa, somente admitiram três candidatos para o curso de português; na 2ª admitiram mais de 30 candidatos para vários cursos, incluindo Jornalismo, Televisão, Reportagem, Língua Chinesa, Sociologia, Enge-nharia de Comunicação e outros. Como a minha província é a mais populosa da China, com mais de 100 milhões de habitantes, o número de candidatos bate o recorde da China: quase um milhão de candidatos em 2009 (equivalente a 12x o número de candidatos de Pequim). A competição por vagas na universidade entre alunos da minha província é feroz, pois mesmo tendo muito mais alunos do que Pequim, há um número muito menor de vagas disponíveis para os alunos de Henan do que para os de Pequim. As pessoas que nasceram em Pequim têm prioridade para entrar nas universidades da cidade, que como eu disse são as melhores do país

Você teve dificuldade para aprender o português?

No início foi superdifícil e a minha vida na faculdade era meio chata. O português é uma língua que nada tem a ver com o chinês. Por isso, precisei me dedicar muito: quase todos os dias, relia o conteúdo no livro, decorava as palavras e textos. Praticamente estudava de manhã até à noite. Agora, depois de três anos de estudo, o português ficou muito mais fácil. Não preciso mais estudar muito fora do horário das aulas, só uma ou duas horas por dia. No resto do tempo, ouço a Rádio Bandnews e leio jornais em português na Internet.

O que você achou de ir morar no Brasil?

Adorei morar no Brasil! Foi muito bom mesmo. Morei em Porto Alegre, RS. A minha vida lá foi muito mais divertida do que aqui na China. O problema é que agora eu acho a vida na China muito chata (risos). No Brasil, eu tinha bastante tempo livre e podia fazer o que quisesse: sair com amigos, viajar para outras cidades. Raramente eu ficava em casa estudando. Os brasileiros são muito receptivos e sempre estavam dispostos a me ajudar. Os brasileiros sabem como viver: sabem que, além de trabalhar, há muitas outras coisas para se fazer, para se divertir e fugir do estresse do trabalho. Os estudantes brasileiros são muito legais. Como eu estudava no PPE (Programa de Português para Estrangeiros), não tinha aulas com estudantes brasileiros, mas conheci vários alunos na UFRGS e, no intervalo das aulas, sempre conversava com eles. Eles têm curiosidade sobre a cultura chinesa e foi muito fácil fazer amizade.

O que você vai fazer quando terminar a faculdade?

Eu fui contratado pelo Banco da China, um dos maiores bancos do país. Eles já estão estabelecidos no Brasil e o meu plano é trabalhar para eles lá. Antes disso, terei que ficar dois anos trabalhando para o banco aqui na China, para entender melhor o funcionamento dos diferentes departamentos. Estou muito feliz, pois eu sempre quis arranjar um trabalho em uma empresa chinesa grande, que pudesse me mandar para trabalhar no Brasil. Falando de lugar ideal para morar, acho que Curitiba, PR, e Florianópolis, SC, seriam alternativas ótimas para morar no Brasil. São cidades bonitas e grandes, mas menos agitadas que São Paulo e Rio de Janeiro.

O Brasil mudou sua vida ou seu ponto de vista de alguma forma?

Minha estada no Brasil foi um marco na minha vida. No Brasil, eu entendi como a vida do ser humano deve ser: o trabalho e o estudo fazem parte da vida, mas também há muitos outros aspectos significativos e coloridos na vida, por exemplo: conviver com a família e os amigos, viajar para conhecer pessoas e lugares, etc. O melhor do Brasil é o ritmo de vida, um povo sempre feliz. Aliás, a violência e a criminalidade são aspectos ruins do país. Felizmente, eu nunca fui assaltado, mas sempre tive um pouco de medo e tomava bastante cuidado para isto não acontecer. Eu sou chinês de nascimento, gaúcho e brasileiro por adoção, um privilegiado!

Authored by: natanael

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