Coaxos na escuridão

Coaxos na escuridão

Em minha ingênua e doída infância havia uns diabos que à noite cravavam estacas no brejo ao largo do velho paiol fincado à borda do quintal, toda noite, a noite toda, intermitentemente, madrugada adentro; até que um dia, então confortado, descobri que aquelas pancadas, como de um machado golpeando a testa de um espeque de braúna, só eram simples coaxos disparados na escuridão.

Até hoje elas me batem no coração.

O medo soturno era só meu e não havia com quem dividi-lo; nascia das sombras, sem razão, para me imergir na solidão. Foi assim que eu gravei um dia, em breve poesia, o que ele fora tempos afora à beira da mata fechada, ao lado do brejo pontilhado de tábuas verdes que, sol a pino, espargiam painas para o ar que eu respirava; ar que não era meu, por estranho que parecia.

Aquele temor que um dia escolhi revelar em preto-e-branco para colar no álbum da minha imensa esperança não foi sensação qualquer. Foi um medo quase agonia, incomum, que germinava da natureza indomada, seu brejo, capoeira e mata úmida em que (eu sabia porque me disseram!) se amoitavam acervos de bichos entre estranhos e engraçados. E todos eles conviviam à mercê de caipora, que os liderava em picadas mata adentro até alcançarem o travesseiro dos meninos que não sabiam o que era luz, mesmo que olhassem detidamente para a lua cheia.

E era exatamente nos dias de lua, que de cheia emagrecia, que a mim me apresentaram muitos moleques estranhos, filhos da dúvida e do segredo, que namoravam e pariam na mata, a começar pelo Saci, negrinho reluzente que um dia se perdeu no pastoreio e cujo andar me segredava ao pé da imaginação que estava a caminho um jeito pererê, querendo roubar a minha perna. Eu nunca soube se era a direita ou se a 16 esquerda. Mas temia pelas duas, imaginando que, ao final das contas, poderia haver dois sacis especiais a quem jamais alguém teria oferecido prótese, mesmo que fosse de gomos de bambu.

E quando já se ia metade de outubro na folhinha já quase finda, em que o sol por inteiro dilatava nuvens negras nos costados da montanha em cujo grotão a gente morava, eu temia mais; mais por não saber qual outro medo ocuparia então o quarto escuro da minha noite crescente a ser saudada por faíscas que riscavam o céu barulhento açoitado pela ventania.

Contraído em minha cama de palha de milho às vezes cheirando a mijo, eu esperava que à sensação de que a mata cairia depois da arrevoada das telhas se seguiria o clamor de minha mãe, que reunia os filhos e todo o medo à beira de sua cama, como a galinha ajunta os seus à vista de um gavião, para falar da beleza da esperança e rezar petições por inteiro. E daquela casa nunca voou telha, forte que o vento tivesse sido.

E assim percebi que as tempestades só sacolejavam a mata para separar joio e trigo; e que cumpriam a missão de fazer com que o solo estremecido pelos estrondos soturnos sorvesse grande medida de toda a água celeste que começava a cair, e caía espessa ou delicada, para saciar a sede de tanta natureza e alimentar o brejo em que todos os sapos, no segredo dos seus coaxos, só malhavam pontas de estacas a ferro frio para provocar minha inocente solidão de menino.

O pânico de mamãe encolhida sobre os joelhos era tanto que quase marejava dos seus olhos esbugalhados, enquanto a Deus ia para implorar socorro. Mas nada daquilo me induziu a temer as coisas que sempre ocorreriam acima de mim, abaixo do sol ou da lua, entre as nuvens que revoltas faiscavam o horizonte e disparavam trovões. Meu pai avisava que aquilo era a voz do Senhor irado dando pito na gente.

Os coaxos que ouvi na escuridão emudeceram porque não há mais brejos à minha volta. Foram extintos pela engenharia agronômica; e, arredias, suas maciças touceiras de tábua, origem de tênue paina alva e macia, deram vaga à macega, aos espinhos e aos cardos. A bruxa, o caipora, o curupira, o lobo mau, entre outros que não conheci, fugiram para um lugar além deste ou desapareceram sob ferro e fogo. Ninguém os viu para me contar como eram em pele e osso, à exceção de Saci de uma perna só que um dia eu vi na pastaria à beira do curral fazendo careta para a minha avó.

Orlando Eller, jornalista, Vitória/ES

Authored by: natanael

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